Serasa Experian identifica nova modalidade de fraude que parte do rosto do próprio criminoso para localizar vítimas fisicamente parecidas e driblar a biometria
Uma nova modalidade de fraude de identidade vem chamando atenção de especialistas em segurança digital no Brasil. Batizada de “golpe do sósia”, a técnica foi identificada pela equipe de inteligência analítica da Serasa Experian e detalhada na edição do Mapa da Fraude referente ao primeiro semestre de 2026. Em vez de partir dos dados de uma vítima específica, como ocorre nos golpes tradicionais, a nova estratégia inverte a lógica da fraude ao usar tecnologia de inteligência artificial para encontrar pessoas reais parecidas com o próprio criminoso.
A lógica inversa que engana a biometria
Nos golpes convencionais de identidade, o fraudador costuma obter primeiro os dados de uma vítima específica, como documentos e informações cadastrais, para depois tentar utilizá-los de forma indevida. No golpe do sósia, o processo começa de um jeito diferente: o criminoso usa ferramentas de comparação facial para varrer bancos de imagens, incluindo material obtido de forma ilícita, em busca de pessoas com traços físicos extremamente semelhantes aos seus, chegando a índices de até 99% de similaridade entre os rostos, segundo a Serasa Experian.
Depois de localizar uma possível identidade compatível, o criminoso passa a utilizar os dados dessa pessoa real para tentar se passar por ela durante processos de validação biométrica, como abertura de contas bancárias, cadastros em plataformas digitais e contratação de serviços financeiros. Segundo Leandro Bartolassi, diretor de Autenticação e Prevenção à Fraude da Serasa Experian, o golpe evidencia como o crime organizado tem se apropriado de tecnologias criadas justamente para reforçar a segurança dos processos de identificação.
Por que o reconhecimento facial isolado não é suficiente
A principal recomendação da Serasa Experian diante da nova ameaça é que a biometria facial nunca seja utilizada como única camada de verificação de identidade, seja por bancos, seja por outras empresas que dependem desse tipo de validação. Segundo a companhia, a combinação de múltiplos sinais de segurança é o que permite identificar inconsistências que passariam despercebidas caso apenas o rosto fosse analisado durante o processo de autenticação.
Entre os recursos complementares recomendados estão a análise documental, a prova de vida, a conferência de informações cadastrais, a avaliação do dispositivo utilizado na tentativa de acesso, a identificação de padrões de comportamento durante a jornada digital do usuário e a análise cruzada de diferentes indicadores de risco. Mesmo diante de um alto grau de semelhança facial, a combinação desses fatores pode revelar sinais de que uma tentativa de fraude está em curso.
O tamanho do problema no primeiro semestre de 2026
Os números do Mapa da Fraude ajudam a dimensionar a escala das tentativas de fraude de identidade enfrentadas atualmente no país. Segundo a Serasa Experian, as soluções antifraude da empresa identificaram e bloquearam 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade apenas nos seis primeiros meses de 2026, um crescimento de 32,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Na prática, esse volume equivale à identificação de uma ocorrência de alto risco a cada 5,5 segundos em todo o país. De acordo com a companhia, as tentativas barradas estavam associadas a um prejuízo estimado em R$ 3,77 bilhões, valor que teria sido evitado graças às camadas de proteção atualmente empregadas pelas instituições financeiras e outras empresas que utilizam os sistemas antifraude da Serasa Experian.
O que os consumidores podem fazer para se proteger
Diante do avanço dessa modalidade de golpe, especialistas em segurança digital recomendam que os próprios consumidores redobrem os cuidados com a exposição de imagens e documentos pessoais, já que esse material pode alimentar as bases de dados usadas por criminosos em buscas por sósias digitais. Entre as principais orientações estão evitar publicar ou enviar fotos de documentos e selfies segurando documentos, fornecer dados biométricos apenas em sites e aplicativos oficiais, e utilizar senhas fortes combinadas com autenticação em dois fatores.
Outras recomendações incluem desconfiar de solicitações inesperadas de reconhecimento facial recebidas por links, mensagens ou códigos QR, não permitir que desconhecidos fotografem o próprio rosto ou documentos pessoais, e manter sistemas operacionais e aplicativos sempre atualizados. A Serasa Experian também recomenda o acompanhamento periódico da situação do CPF e a busca pelos canais oficiais das empresas sempre que o consumidor identificar movimentações ou solicitações suspeitas em seu nome.
O desafio também recai sobre as empresas
Do lado das empresas, a orientação técnica segue na mesma direção: evitar que uma única informação, fotografia ou resultado biométrico seja suficiente, isoladamente, para aprovar a identidade de um usuário. A estratégia recomendada pela Serasa Experian envolve a combinação de diferentes mecanismos de verificação, incluindo biometria facial, prova de vida, análise documental, cruzamento de dados cadastrais e avaliação constante do dispositivo e do comportamento digital de quem está solicitando o acesso.
Também é considerado essencial o monitoramento de tentativas repetidas de validação, a identificação de comportamentos fora do padrão esperado e a atualização contínua das regras e dos modelos utilizados pelos próprios sistemas antifraude, já que as técnicas empregadas por criminosos tendem a evoluir na mesma velocidade das ferramentas de proteção.
Uma corrida tecnológica sem fim à vista
O avanço do golpe do sósia ilustra um movimento mais amplo observado no setor de segurança digital: à medida que a inteligência artificial se torna mais acessível e sofisticada, tanto instituições financeiras quanto criminosos passam a utilizá-la, ainda que para propósitos opostos. Enquanto empresas investem em sistemas cada vez mais capazes de identificar fraudes, os golpistas buscam formas de explorar exatamente as mesmas tecnologias em busca de brechas.
O resultado é uma corrida contínua entre desenvolvedores de sistemas antifraude e grupos criminosos, que tende a se intensificar à medida que ferramentas de inteligência artificial generativa e de comparação facial se tornam mais precisas e mais fáceis de operar, inclusive fora de ambientes corporativos regulados.
Para especialistas do setor, casos como o golpe do sósia reforçam a necessidade de sistemas de identificação cada vez mais completos, capazes de analisar não apenas o rosto de quem está diante da câmera, mas também os dados, o comportamento e o contexto de cada tentativa de autenticação, uma mudança de paradigma que já começa a ser adotada por bancos e plataformas digitais no Brasil.
Fontes:
https://www.portalitapipoca.com.br/tecnologia/2026/09/07/golpe-do-sosia-usa-reconhecimento-facial-para-tentar-burlar-sistemas-de-identificacao.html
https://www.chicosabetudo.com.br/servico/golpe-do-sosia-usa-reconhecimento-facial-para-burlar-biometria-0926