Ernesto Kenji Igarashi, especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, destaca que as primeiras horas de uma crise definem a narrativa das semanas seguintes. É nesse intervalo, quando as informações ainda são incompletas e o telefone não para de tocar, que a maioria dos erros de comunicação acontece. A pressa por responder e o silêncio absoluto costumam causar o mesmo estrago: ambos entregam o controle da história para outra pessoa.
Continue a leitura e veja que o caminho para não piorar a situação é menos sobre carisma e mais sobre método. Existe uma sequência que separa o porta-voz que estabiliza a crise daquele que a alimenta, e ela começa antes de qualquer declaração.
Antes de qualquer declaração, defina quem é o porta-voz
Ernesto Kenji Igarashi aponta que o primeiro erro de uma crise mal conduzida é a multiplicidade de vozes. Quando três pessoas diferentes falam com a imprensa, surgem três versões, e a divergência entre elas vira a notícia. A organização precisa designar um único porta-voz, com autoridade para falar e acesso direto a quem toma as decisões. Todos os outros, por mais bem-intencionados, redirecionam as perguntas para ele. Sem exceção.
Esse porta-voz não é necessariamente o cargo mais alto. É quem reúne credibilidade, sangue-frio e domínio do assunto. Um executivo nervoso diante da câmera pode custar mais caro do que o próprio incidente.
Reúna os fatos antes de construir a versão
Nenhuma declaração deve sair antes de a organização saber o que aconteceu. Isso parece óbvio, mas a pressão por responder rápido leva times a especular em público. Especular é o pior movimento possível, dado que, se a versão inicial se provar errada, a correção seguinte destrói a credibilidade de tudo o que vier depois. É melhor dizer “estamos apurando” do que afirmar algo que terá de desmentir amanhã.
Dentre esse panorama, Ernesto Kenji Igarashi aponta que a confiança do público não se perde no fato em si, mas na sensação de que estão sendo enganados. Uma informação errada dita com convicção causa mais dano do que uma incerteza admitida com honestidade.

Trate a imprensa como canal
O jornalista vai publicar com ou sem a sua versão. Tratá-lo como adversário só garante que a história saia sem o contraditório da organização. A postura mais eficaz é a de fonte disponível e confiável: retornar ligações, respeitar prazos de fechamento e evitar o “sem comentários”, que soa como confissão. Gestão de imagem em crise é, em boa parte, gestão de relacionamento com quem conta a história.
A imprensa não costuma ser o problema em uma crise; o problema é a organização tratá-la como se fosse. Ernesto Kenji Igarashi explica que isso não significa entregar tudo, significa escolher com clareza o que será dito e sustentar essa mensagem em todos os canais, da entrevista ao comunicado oficial.
Sumir é a pior estratégia de todas
O silêncio raramente protege. Ele apenas transfere a narrativa para terceiros: concorrentes, ex-funcionários insatisfeitos, comentaristas nas redes. Ernesto Kenji Igarashi avalia que, sem a voz da organização, o vácuo é preenchido por especulação, e especulação sempre pende para o pior cenário imaginável. Uma empresa que some durante a crise comunica, sem querer, que não tem o que dizer em sua defesa.
A decisão de aparecer, mesmo sem ter todas as respostas, é o que diferencia a instituição que atravessa a crise daquela que é atravessada por ela. Presença controlada vale mais que ausência prudente.
Comunicação de crise se prepara antes da crise
O porta-voz mais preparado não é o que improvisa bem. É o que treinou antes, definiu papéis antes, escreveu os protocolos antes. Quando a crise chega, não há tempo para descobrir quem fala e o que dizer. Há apenas tempo para executar um plano que já deveria existir.
A empresa que só pensa em comunicação quando o telefone toca já está em desvantagem. Ernesto Kenji Igarashi resume que, no fim, falar bem sob pressão é consequência de ter organizado o silêncio antes do barulho. A crise revela o preparo. Ela não o cria.