Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental, destaca que o mercado de reciclagem é frequentemente tratado no debate público como se fosse movido exclusivamente por motivações ambientais, quando na verdade funciona como qualquer outro mercado de commodities, com preços determinados pela oferta e pela demanda, pela qualidade do material disponível e pelas condições da economia global.
Compreender essa lógica econômica é essencial para entender por que alguns materiais são amplamente reciclados enquanto outros, mesmo quando separados corretamente, acabam nos aterros, e por que a viabilidade da reciclagem varia tanto entre regiões e ao longo do tempo. Ao longo deste conteúdo, veremos como esse mercado funciona e o que determina seu desempenho no Brasil.
Os atores da cadeia de reciclagem e seus papéis econômicos
A cadeia de reciclagem envolve um conjunto de atores com funções e interesses distintos que precisam estar alinhados para que o sistema funcione de forma eficiente. Os catadores e cooperativas de materiais recicláveis são responsáveis pela coleta e triagem primária, separando os materiais por tipo e qualidade para comercialização. Já os sucateiros e aparistas atuam como intermediários, comprando materiais em volumes menores dos catadores e revendendo lotes maiores para as indústrias recicladoras. As indústrias recicladoras, por sua vez, processam os materiais coletados e os transformam em matéria-prima secundária para uso em novos processos produtivos.
Conforme aponta Marcello José Abbud, cada elo dessa cadeia opera com margens econômicas distintas e com diferentes níveis de vulnerabilidade às variações de preço dos materiais no mercado. Os catadores e cooperativas, que estão no elo mais fraco da cadeia em termos de poder de negociação, são os primeiros a sentir os efeitos das quedas de preço e os últimos a se beneficiar das altas, o que torna a renda desses trabalhadores altamente volátil e dependente de condições de mercado que estão completamente fora de seu controle.

O que determina o preço dos materiais recicláveis?
O preço dos materiais recicláveis é determinado por uma combinação de fatores que operam em diferentes escalas. No nível global, o preço das matérias-primas virgens é o principal referencial: quando o petróleo está barato, o plástico virgem se torna mais competitivo em relação ao plástico reciclado, reduzindo a demanda e os preços do material reciclado. Da mesma forma, quando os preços do alumínio primário caem nas bolsas de commodities, o valor do alumínio reciclado segue a tendência de queda.
Dentre o que apresenta Marcello José Abbud, no nível local e regional, a qualidade do material coletado é o fator mais diretamente controlável pelos agentes da cadeia de reciclagem. Afinal, um material bem separado na origem, limpo e homogêneo em termos de tipo de polímero ou liga metálica, alcança preços significativamente superiores ao material contaminado ou heterogêneo. Esse diferencial de preço é o argumento econômico mais direto para investir em educação ambiental e em sistemas de coleta que garantam qualidade do material desde o descarte pelo consumidor.
Por que alguns materiais não têm mercado e o que isso significa?
Nem todos os materiais teoricamente recicláveis encontram mercado comprador no Brasil, independentemente da qualidade com que são coletados e separados. De fato, plásticos de menor valor como o isopor, o plástico filme e embalagens multicamadas raramente têm compradores industriais dispostos a pagar um preço que cubra os custos de coleta, transporte e processamento. Esses materiais acabam sendo destinados a aterros mesmo quando passam pela coleta seletiva, gerando frustração nos consumidores que fizeram a separação correta sem obter o resultado esperado.
Na perspectiva de Marcello José Abbud, ampliar o mercado para materiais de menor valor requer uma combinação de instrumentos que não se resumem à boa vontade dos agentes econômicos. Exigências regulatórias de conteúdo reciclado mínimo em produtos industriais, incentivos fiscais para indústrias que utilizem matéria-prima reciclada de menor valor e investimento em tecnologias que ampliem a reciclabilidade de materiais atualmente sem mercado são medidas que criam as condições econômicas necessárias para que a cadeia de reciclagem funcione de forma mais abrangente e menos dependente das flutuações dos mercados globais de commodities.