O segundo turno da eleição presidencial passou a contar, nesta terça-feira (20), com uma agenda organizada por entidades que não integram formalmente as campanhas. A coalizão Vida em Conta, formada por cerca de 70 organizações da sociedade civil e aproximadamente 140 economistas, apresentou o documento “10 Propostas para um Novo Ciclo de Desenvolvimento no Brasil”, que será encaminhado aos dois candidatos à Presidência.
Mais do que uma lista de reivindicações setoriais, o material procura colocar no centro do debate temas relacionados ao custo de vida, à desigualdade e à qualidade dos serviços públicos. As propostas alcançam áreas que afetam diretamente a rotina da população, como transporte, cuidados, trabalho, alimentação, tributação e transição ambiental.
Segundo a Agência Brasil, a iniciativa será apresentada às campanhas dos dois concorrentes que disputarão a etapa final da eleição. Até o momento descrito na divulgação, o documento representa uma contribuição da sociedade civil ao debate, e não um compromisso formal assumido pelos candidatos.
Mobilidade e cuidados aparecem entre as prioridades
Um dos eixos destacados é a criação de um Fundo Nacional de Mobilidade Urbana. A proposta prevê a possibilidade de implantação progressiva da tarifa zero, tema que envolve o financiamento do transporte coletivo e o acesso da população a serviços, empregos e equipamentos públicos.
A formulação de uma política nacional de cuidados também está entre as medidas apresentadas. O escopo citado inclui creches e centros de atendimento, indicando uma tentativa de tratar como política pública atividades essenciais para crianças, famílias e pessoas que dependem de assistência cotidiana.
Na prática, esses dois pontos conectam problemas frequentemente tratados de maneira separada. O transporte influencia o acesso ao trabalho e à educação, enquanto a oferta de cuidados interfere na possibilidade de participação econômica e na divisão das responsabilidades dentro das famílias. O documento os reúne em uma mesma agenda de desenvolvimento e redução das desigualdades.
Tributação, trabalho e segurança alimentar
Outra frente defendida pela coalizão é a revisão de subsídios e incentivos fiscais. A proposta aparece associada à busca por maior eficiência das políticas públicas e à discussão sobre quem se beneficia dos mecanismos de apoio existentes. O material também sugere o aumento da tributação efetiva sobre os mais ricos, vinculando o debate fiscal à redução das desigualdades.
O conjunto inclui ainda medidas relacionadas à agricultura familiar e à segurança alimentar. Embora a divulgação não detalhe, no material consultado, todas as formas de execução dessas ações, a presença dos temas mostra que a agenda pretende combinar políticas de renda e produção com o acesso regular a alimentos.
As relações de trabalho também fazem parte das propostas, com a regulamentação do fim da escala 6×1. A inclusão do assunto leva ao debate presidencial uma discussão sobre jornada, descanso e organização do trabalho, sem que a apresentação da coalizão signifique que os candidatos tenham aderido previamente à medida.
Transição ambiental e desenvolvimento tecnológico
A transição para uma economia de baixo carbono é outro eixo do documento. A proposta insere a questão ambiental no planejamento econômico e procura relacioná-la às decisões sobre produção, emprego e desenvolvimento. O texto também aborda o desenvolvimento tecnológico, indicando que inovação e capacidade produtiva são consideradas partes do próximo ciclo de crescimento defendido pela coalizão.
Esse recorte amplia o alcance da agenda. Em vez de concentrar as sugestões apenas em políticas sociais imediatas, a Vida em Conta combina ações de proteção social com mudanças na estrutura econômica. A consequência é um programa que exige coordenação entre diferentes áreas do governo, como Fazenda, Trabalho, Desenvolvimento Social, Meio Ambiente, Educação, Transportes e Ciência e Tecnologia — sem que o documento, conforme as informações disponíveis, apresente um cronograma detalhado de implementação.
Próximo passo será a resposta das campanhas
A entrega aos candidatos cria uma oportunidade para que as campanhas explicitem quais propostas pretendem incorporar, adaptar ou rejeitar. Também permite avaliar se os temas terão espaço nos programas de governo e nos debates do segundo turno. Para os eleitores, a comparação poderá ir além de promessas gerais e considerar medidas concretas sobre transporte, cuidados, tributação, jornada e meio ambiente.
A relevância política do documento, portanto, dependerá tanto de sua capacidade de influenciar o debate quanto das respostas que receber. A coalizão reúne organizações e economistas em torno de uma agenda comum, mas a decisão sobre prioridades, fontes de financiamento e formato das políticas caberá aos candidatos e, em caso de vitória, ao governo eleito e ao Congresso Nacional.
Apresentada em 20 de outubro de 2026, a iniciativa acrescenta ao segundo turno uma perspectiva institucional da sociedade civil. Seu principal efeito imediato é organizar, em dez propostas, demandas que atravessam a vida cotidiana e pressionar as campanhas a se posicionarem sobre como pretendem enfrentar desigualdades e orientar o desenvolvimento do país.