Disputas por mérito raramente aparecem nos organogramas; Haroldo Augusto Filho, executivo da Fource Consultoria com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, aponta que poucas fontes de atrito são tão silenciosas e corrosivas quanto a disputa sobre quem merece o crédito por um resultado. Ela raramente é declarada, mas está em quase toda grande conquista coletiva.
Um contrato importante é fechado, um projeto entrega acima do esperado, e de repente várias áreas reivindicam a autoria. A crença comum é de que reconhecer a contribuição dos outros diminui o próprio mérito. Neste texto, entenda por que essa ideia é um mito e o que ela custa às empresas.
A crença de que crédito não se divide
Na lógica de muitas empresas, reconhecimento é um recurso escasso. Promoções, bônus e visibilidade diante da diretoria dependem de resultados atribuídos a alguém, e cada área tem interesse em ser esse alguém. Dividir o crédito, nessa visão, equivale a perder parte da recompensa, e a disputa pela autoria se torna natural.
De acordo com análise de Haroldo Augusto Filho, essa lógica ignora que quase nenhum resultado relevante é produzido por uma única área. O contrato fechado pelo comercial dependeu da proposta técnica da engenharia, do preço calculado pelo financeiro e da capacidade garantida pela operação. Atribuí-lo a uma só equipe distorce a realidade.
O que a disputa por crédito produz?
Uma fabricante conquista seu maior cliente do ano. Na reunião de resultados, a diretoria comercial apresenta a conquista como fruto de sua estratégia, sem mencionar o trabalho da engenharia, que adaptou o produto em tempo recorde. Na semana seguinte, a engenharia passa a responder com atraso a todas as demandas do comercial.
Ninguém declara o conflito, mas ele passa a existir. A área que não foi reconhecida reduz o empenho em projetos conjuntos, compartilha menos informação e passa a disputar o crédito na próxima oportunidade. O que era uma colaboração bem-sucedida se transforma em rivalidade silenciosa, alimentada por um episódio de que poucos se lembram.

Há ainda um custo para quem se apropria do mérito. Colegas percebem o movimento e passam a evitar colaborar com quem não divide reconhecimento. Com o tempo, a pessoa ou área que acumulou crédito fica isolada justamente quando precisa de apoio. Como reflexo direto, Haroldo Augusto Filho adverte que a apropriação do mérito cobra juros altos no médio prazo.
Dividir crédito aumenta, e não reduz, o reconhecimento
Ao contrário do que se supõe, reconhecer publicamente a contribuição de outras áreas fortalece a imagem de quem reconhece. Líderes que distribuem crédito são vistos como capazes de coordenar esforços e de construir resultados coletivos, uma qualidade cada vez mais valorizada em posições de maior responsabilidade. A generosidade vira sinal de competência.
No caso da fabricante, bastaria que a diretoria comercial dissesse, na reunião de resultados, que a conquista só foi possível porque a engenharia adaptou o produto em tempo recorde. A frase não reduziria o mérito do comercial; mostraria sua capacidade de mobilizar outras áreas e garantiria colaboração nas próximas oportunidades.
Também cabe à liderança da empresa desenhar formas de reconhecimento que reflitam a natureza coletiva dos resultados. Metas compartilhadas, apresentações conjuntas e premiações por projeto, e não apenas por área, reduzem a disputa pela autoria, porque o sistema passa a recompensar quem colabora. Muda o incentivo, muda o comportamento.
Reconhecimento como moeda de colaboração
Disputas por crédito parecem detalhes de convivência, mas moldam a forma como as áreas cooperam ou deixam de cooperar. Cada episódio de mérito apropriado ensina à organização que colaborar é arriscado; cada episódio de mérito reconhecido ensina o contrário. Ao longo do tempo, essas lições acumuladas definem a cultura da empresa.
Tratar o reconhecimento como recurso a ser compartilhado, e não disputado, é uma decisão de liderança com efeitos práticos. Nesse encadeamento, Haroldo Augusto Filho sublinha que dividir o mérito não custa nada a quem divide e rende cooperação a quem recebe. Poucos investimentos têm retorno tão alto com custo tão baixo.